Dr. Maurício Cardoso é exemplo na conservação de solos
O pequeno município de Doutor Maurício Cardoso, localizado no Nordeste do Rio Grande do Sul, se tornou uma referência em conservação de solos agrícolas. Tanto que recebeu, recentemente, visitantes de Novo Xingu, além de dirigentes da Emater/RS-Ascar e da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) para mostrar as iniciativas de boas práticas agrícolas implantadas na metade dos anos 1990, época em que ainda se praticava, no local, a agricultura convencional. Grande parte dos produtores adotou o sistema plantio direto com suas fundamentais ações de não revolvimento de solo e cobertura permanente da superfície, além da rotação de culturas. O destaque do método são os terraços, inseridos no sistema de conservação baseado em microbacias hidrográficas. A agricultura no município é empreendida em 758 propriedades (distribuídas em 17 comunidades), 40% das quais em áreas inferiores a 10 hectares. No verão, são 13.750 hectares de soja e 5 mil de milho, além de outros 5 mil hectares de trigo no inverno. O trabalho nesses ambientes começou em 1992, visto as então perdas de produções para estiagens ou excesso de chuvas intensas que provocavam a erosão, danosa para os solos, pois a água em excesso não infiltrava na terra, escorria na superfície e assim levava junto as camadas mais férteis. “Surgiu em função de uma necessidade. O pessoal da própria comunidade se mobilizou diante das perdas de solos que estavam ocorrendo. A fertilidade estava indo embora”, conta o extensionista da Emater/RS-Ascar Albino Motter, como se deu o engajamento coletivo para a melhoria, com o apoio da instituição de assistência técnica, prefeitura, cooperativa Cotrimaio e Embrapa. Como marco da melhoria, em 1995 já foi possível promover no município um dia de campo que atraiu 5 mil agricultores de outras regiões do Estado justamente para mostrar o trabalho de preservação desenvolvido pelos produtores. “Foi um trabalho completo. Não só um olhar para a questão das lavouras, mas a propriedade como um todo. Porque envolveu a recuperação de mata ciliar, a proteção de nascentes, o manejo da parte sanitária do saneamento da propriedade, com fossa séptica e sumidouro. O todo da propriedade para deixar bem organizada”, descreve. “Envolveu o todo da propriedade. Isso de uma certa forma permaneceu e continuou até os dias atuais”, acrescenta. Plantio direto e terraços O extensionista relata que, com a chegada do plantio direto, o que deixou os solos mais protegidos, muitos agricultores retiraram os terraços, pois entendiam não serem mais necessários para bloquear a vazão da água da chuva na superfície da lavoura, mas depois voltaram a implantá-los. “O terraço faz parte do manejo integrado de solos”, justifica. “Junto das demais práticas.” Ele explica que o município integra o programa Operação Terra Forte, iniciativa do governo estadual para a recuperação e melhoria de solos, e, neste contexto, há o incentivo à implementação de terraços. “No manejo e conservação de solos (no âmbito do programa) entrou a prática do terraceamento, que faz parte do manejo integrado”, explica. Como consequência do melhor manejo dos solos, as perdas de produtividade são amenizadas quando ocorrem as estiagens, comuns no Rio Grande do Suil. “São 30 anos de um histórico de conservação de solo e que teve continuidade”, argumenta. Com a adoção do sistema plantio direto, por volta de 1997 a 2000, os solos se tornaram mais aptos à infiltração de água, o que mitiga os efeitos de longos períodos sem precipitações. “Aquele trabalho inicial teve um bom resultado. Mas eles viram que não era o suficiente, e houve a entrada do plantio direto que começou a melhorar muito mais”, complementa. Atualmente, Motter relata que cerca de 85% das propriedades adotam as recomendadas práticas conservacionistas como rotação, terraços e plantio em nível. Conforme ele, aquelas ações implantadas durante décadas se submeteram a melhorias e evoluções. “Eles já foram melhorando as produtividades. Isso não deixa de ser meio que contínuo, em função da tecnologia embarcada cada vez mais, como melhores variedades. Mas a maior contribuição disso talvez seja a questão da melhoria da estrutura de solo”, descreve. Nesta questão o extensionista destaca a alta produtividade de milho, que precede a segunda safra de soja. No inverno, além de trigo também é cultivada a canola, assim como é explorada a pecuária suína e de leite. Mas os grãos compõem a principal atividade. Águas das estradas Água acumulada nas estradas são conduzidas para o sistema Água acumulada nas estradas são conduzidas para o sistema | Foto: Divulgação / Correio do Povo / CP Motter ainda destaca um sistema diferente adotado pelos agricultores de Doutor Maurício Cardoso, pelo qual a água das chuvas que circula pelas estradas vicinais acabam sendo escoadas para as lavouras, onde são melhor conduzidas pela estrutura do sistema, e assim não provocam danos. “Houve na época uma readequação das estradas colocando a água que se forma na estrada que vai para as lavouras. Portanto, reduz aquele fluxo e mantém a manutenção das estradas, e tem um custo muito menor, porque é muito raro ter que fazer uma pequena manutenção nas estradas do interior”, relata. Fonte: Correio do Povo Postado: Clecio Marcos Bender Ruver
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